Mostrando postagens com marcador do verbo amar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador do verbo amar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Soneto da Serendipidade

Quando é o azul que colore céu e mar

a matiz do sentimento que alaga

é que não mais se pode ignorar

a luminosa união que se consagra.

 

Os pares de olhos, tal qual espelho,

miram-se profundos — e a nada mais.

À deriva, não: seu coração tão vermelho

é seu guia, seu norte, sua estrela vivaz.

 

Sucessão de acasos até o abraço,

aquele que sela o encontro ultimado,

conclui a busca por seis, sete vidas perdurada.

 

Para ao fim ocuparem o mesmo espaço,

no mais pleno desembaraço o amado,

em graciosa felicidade a amada.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Ele disse, ela disse

Foto: gerada pela ferramenta de criação do Bing.

Ele disse que foi espontâneo.

Ela disse que estava reparando na pinta que ele tem pouco abaixo do lábio inferior e acabou se esquecendo de puxar assunto.

Ele disse que a conversa estava ótima, mas que não via mal em tirar uns momentos para contemplação. Tinha muito a contemplar, ele disse.

Ela disse que deixou a pinta de lado quando reparou melhor naquele sorriso tímido, na boca que ainda estava vacilante sobre falar algo ou deixar que sobreviesse o silêncio; ela também estava, mas não quis dizer nada.

Ele disse que chegou à conclusão, naquele momento, de que ela era a moça mais bonita com quem já havia saído.

Ela disse que não era incomum conhecer rapazes mais charmosos que ele, mas ele era, sem dúvidas, um dos mais carismáticos.

Ele disse que perdeu a noção do tempo naquele lugar em que tudo o que existia eram seus olhos e olhos dela, ambos os pares se atraindo e tragando-os para si.

Ela disse que não sabe qual música estava tocando de fundo.

Ele disse que também não faz a menor ideia.

Ela disse que não sabe se foi antes ou depois de pedirem as bebidas.

Ele disse que ela foi a primeira pessoa que pareceu notar a pequena cicatriz abaixo do seu olho direito.

Ela disse que ficou curiosa quanto àquela minúscula cicatriz, mas não quis quebrar o silêncio para perguntar.

Ele disse que o silêncio acalmou seu coração, antes disparado, tranquilizando-o por inteiro.

Ela disse que o silêncio a embalou e a colocou numa posição de conforto como nunca tinha sentido em um primeiro encontro.

Ele disse que não havia como se cansar de admirar cada detalhe do rosto dela; particularmente, quando os olhos deixavam, ele sempre voltava para as bochechas e para a ponta do nariz.

Ela disse que o rosto dele ia se tornando mais lindo a cada segundo.

Ele disse que tinha centenas de assuntos que queria conversar com ela – já até havia imaginado alguns diálogos na sua cabeça –, porém, a seu ver, isso podia esperar.

Ela disse que não planejou pegar na mão dele, simplesmente aconteceu.

Ele disse que não planejou pegar na mão dela, simplesmente aconteceu. E quando os dois viram, estavam com os dedos entrelaçados.

Ela disse que a cor dos olhos dele era verdadeiramente única.

Ele disse que nunca gostara dos seus olhos, de um castanho tão comum; mas em nenhum momento sentiu vergonha.

Ela disse que também não sentiu vergonha, ao contrário, queria que ele visse o que havia além daquilo que sempre admiravam ou rechaçavam.

Ele disse que às vezes percebia pessoas ao redor observando curiosas, mas as ignorava completamente.

Ela disse que não foi difícil esquecer que estavam em um restaurante.

Ele disse que esperava que um incêndio não começasse perto deles, pois eles demorariam bastante para notar.

Ela disse que a mão dele era cálida e um pouco áspera.

Ele disse que de vez em quando o sorriso dela se alargava com leveza, e nesses momentos ele se arrependia de não ter consigo uma aliança.

Ela disse que tudo aquilo era uma loucura, no entanto era uma loucura que estava adorando.

Ele disse que sua impressão era que naquele tempo a pôde conhecer melhor do que se tivessem passado horas jogando conversa fora.

Ela disse que entendeu muito dele enquanto seus olhos não podiam – e não queriam – fugir dos dela.

Ele disse que sempre gostou de observar a natureza desabrochar; e ali à sua frente estava a obra-prima entre todas as coisas mais belas do mundo, desabrochando sob seu olhar atento.

Ela disse que gostava de ir em museus e contemplar graciosas estátuas em seus mínimos detalhes.

Ele disse que a pupila esquerda dela era um pouco maior.

Ela disse que era verdade.

Ele disse que foi como um beijo, mas de olhos bem abertos.

Ela disse que foi bem melhor que muitos beijos.

Ele disse que ali teve o impulso de pedi-la em namoro, porém achou cedo demais.

Ela disse que teria aceitado.

Ele disse que tinha esperanças de que o restaurante fechasse e simplesmente os esquecem lá, para que eles pudessem continuar se encarando noite afora.

Ela disse que naturalmente apoiou o rosto em sua mão, como quem se prepara para ficar na mesma posição por horas a fio.

Ele disse que havia uma beleza no fundo dos olhos dela que, por fim, o deixou sem reação.

Ela disse que a graça daquele instante era que nenhuma ação ou reação eram necessárias.

Ele disse que não sabia as regras.

Ela disse que não havia regras.

Ele disse que começou a ficar receoso sobre a hora em que aquela conexão iria se romper e a magia talvez se esvanecesse.

Ela disse a ele que não se preocupasse com isso agora – e o fez ainda em silêncio, apenas com o olhar.

Ele disse que se acalmou.

Ela disse que sorriu.

Ele disse que aquele sorriso o iluminou por dentro.

Ela disse que sabia que ele sentia o mesmo.

Então ele disse...

Então ela disse...

Até que eles perceberam que não precisavam dizer mais nada.

domingo, 12 de junho de 2022

É você, só você

Então, é você.

Dentre todos, você.

Quantos mais belos? Quantos mais necessários?

Mas não: você.

Tantos já tentaram, todos já falharam.

E você... quase! Porém, ficou.

Permanece, em um incompreensível movimento,

Que só se explica por sincero sentimento

E não por um atributo qualquer.

Porque não importa quem vier

Nem quantos buquês trouxer,

Ela já preencheu seu jardim

Todo com um único espécime. No fim,

Foi você.

 

Dentre bilhões no mundo,

Foi você.

Só de convivência diária há tantas opções,

No entanto, ela escolheu, no fundo,

Você.

Não há ninguém além, sem questões,

De você.

 

Sim, poderia ser alguém mais interessante;

Mais inteligente, alto, forte, elegante;

Alguém que não fosse tão distraído;

Alguém que se garantisse como o melhor marido;

Alguém que estudou bem mais;

Alguém sem nenhum tipo de conflito com os pais;

Alguém que usasse um perfume melhor;

Alguém que não pensasse do futuro o pior;

Alguém que fosse lá e fizesse acontecer;

Alguém que fosse admirado por todo o seu saber;

Algum ativista de causas diversas;

Alguém que sempre estivesse nas melhores conversas;

Algum artista, bem-sucedido na função;

Alguém que parecesse trabalhar por diversão;

Alguém para quem a vida se assemelhasse a uma festa;

Aquela pessoa cuja opinião ninguém contesta;

Alguém que tivesse vasto conhecimento do mundo;

Enfim, alguém que entendesse qualquer assunto a fundo.

E, no entanto,

Contra todas as expectativas,

A melhor escolha não foi

A pessoa melhor

Mas a melhor pessoa

Para ela,

Que é

Você.

Aconteceu de ser

Você.

 

Não foi o primeiro romance dela,

Mesmo que ele a fizesse rir até chorar.

Não foi tampouco o segundo,

Que a fez entender de verdade o que era se apaixonar.

Nem mesmo o terceiro,

Ainda que eles sempre concordassem sobre o que pedir pro jantar.

Também não foi o quarto relacionamento,

Cujo término a fez se desidratar de quase chorar

E do qual ela achou que nunca fosse se recuperar.

Não foi o quinto,

Como a cartomante havia feito ela acreditar.

E nem o sexto,

Por que mesmo? Ela nem consegue se lembrar.

O fato é que todos os que vieram antes

Terão que se conformar:

Na mão esquerda dela só há um dedo anelar

E mesmo no coração, com tanto espaço pra amar,

Há uma vaga especial para só um ocupar.

E ele já está cheio, sinto informar,

Cheio por você.

 

Sim, é realmente você.

Mesmo você comprando o presente no próprio dia;

Mesmo você nem sempre sendo a melhor companhia;

Mesmo você fazendo confusão com as datas;

Mesmo você tendo umas manias tão chatas;

Mesmo você não conseguindo se levantar mais cedo e preparar o café da manhã;

Mesmo você podendo fazer hoje e deixando para fazer amanhã;

Mesmo você arrumando uma solução quando ela só quer consolo;

Mesmo você sendo incapaz de seguir uma receita sem queimar o bolo;

Mesmo você reclamando de detalhes sem importância;

Mesmo muitas das discussões sendo por mera implicância;

Mesmo você achando que não merece ser tão feliz;

Mesmo ela não acreditando em tudo o que você diz.

 

Não obstante essa lista,

Não há maior conquista

Do que você poder dizer

“Sou eu.”

E ter a certeza de que venceu.

Afinal, o que importaria

Mais que esse amor desinteressado?

Que outro título você almejaria

Que não o de namorado?

De que valeria ter todo o resto

Se não pudesse dizer

Que é vão qualquer protesto

Porque ela já escolheu

E ela escolheu

Você?

 

Se isso não merece

A maior gratidão imaginável

Não sei o que mereceria.

Pois se de muitas coisas você ainda carece

Nenhuma delas é tão indispensável

Quanto aquilo que ninguém descreveria

Com facilidade, mas que

Você possui, de verdade

Porque foi contemplado também

Com o sentimento de liberdade

Que só conhece quem está com alguém.

 

Por isso, meu caro

Nunca se esqueça,

Ainda que às vezes você se esmoreça,

Algo aqui deve ficar bem claro:

Nunca deixe de agradecer

Por sabe-se lá o que fez ela escolher

Não A, nem B, nem C,

Mas unicamente,

Especialmente,

Inquestionavelmente,

Apaixonadamente

Você.

sábado, 12 de junho de 2021

A tempestade que chega é da cor dos teus olhos

Foto: archibald, via Flickr



Logo eu, que sempre invejei os genes dos ramos mais turmalina da família.

Eu, que no íntimo desejei uma miopia a ser corrigida com lentes de contato — coloridas.

Eu, que gastava o lápis azul para pintar, em meus rabiscos, dois reluzentes olhinhos em cada personagem, espelhos do meu desejo.

Eu, que cheguei a fazer promessa com a fé de que minhas íris perdessem ao menos um pouco de seu pigmento.

Eu, justo eu, perdi-me em contradições e mergulhei até ficar sem ar em uma piscina com águas turvas; turvação de cor castanho-escura, assim como os meus, assim como os dela.

Foi no instante em que ela me olhou da primeira vez. Foi também pela maneira como me encarou após o jantar de ontem. É, na verdade — devo confessar —, a cada uma das vezes em que ela me focaliza. Quando estou em seu foco, estou no seu espaço. É escuro, mas não vazio. É tão cheio de estrelas que há energia suficiente irradiando e me fornecendo calor. Talvez não sejam estrelas, tal quais as pintinhas em suas têmporas, com as quais me divirto a formar constelações. Sim, talvez não sejam estrelas, mas definitivamente brilham; e se eu enxergo esse brilho é porque ele contrasta com o fundo de um escuro sidéreo. Nele, sou astronauta, como em meus sonhos de criança.

O que aliás diria meu eu-criança sobre minhas contradições? Ou melhor: o que eu teria a lhe dizer? Que azul é uma bela cor, no entanto há outra que a supera em vivacidade? Que a combinação de todas as tonalidades virtuosas não resulta em preto, mas em uma cor única que eu e poucos tivemos o privilégio de captar? Que, se eu pudesse escolher, passaria a eternidade, em pé ou sentado, deitado, ajoelhado — em condição de agradecimento —, esquadrinhando cada camada daqueles dois pequenos círculos?

O equivocado garoto que fui decerto não conseguiria compreender a Verdade que eu avistei naquele olhar. Sim, eu descobri a cor da Verdade tão logo a reconheci: e ela nada tinha de azulado, senão uma tonalidade dura e imaleável, quase segura. Uma cor que não instava que eu me aproximasse, contudo tornava impossível que dela eu me desviasse. Mais que atraente, era necessária. E mesmo quando o corpo ludibriava e a língua tentava enrolar, seus olhos ainda eram sinceros comigo. Neles buscava todas as respostas de que precisava e só houve uma que procurei em vão, ainda que fosse tão simples como um sim ou um não; naquele momento, porém, só encontrei reticências circulando e entendi que aquela era então a sua verdade. Entendi que suas pupilas eram ímãs que ora tinham polaridade positiva, logo me puxavam e me arrastavam de um jeito inexoravelmente magnético; mas ora eram negativas, como as minhas, quando então tendiam a me repelir, pois queriam estar sós, livres, presas a nada. Nos dois instantes, elas continuavam belas e firmes, como mágica.

Uma mágica que eu adorava admirar todas as manhãs em que eu despertava primeiro e podia assistir as suas pálpebras descobrindo as janelas e permitindo que a luz entrasse em mim. Luz amarronzada que refletia dos seus olhos para os meus, permitindo que eu apreciasse em detalhes cada um daqueles dois olhos-de-tigre. E, por um segundo, eu hesitava em beijá-la, porque não queria perder os olhos dela de vista, queria-os sempre abertos, atentos, para continuar a decifrá-los, como quando ela coloca a máscara e é unicamente por meio deles que devo adivinhar seus sorrisos, suas tristezas, suas dúvidas e relutâncias.

Logo eu, que almejava o azul do céu, fui contemplado com todo o universo. E enquanto ela retribuir meu olhar, este será meu farol e eu saberei, assim, para onde rumar.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

O erro de Psiquê (ou Cada uma das infinitas faces do amor)

 


Dentre tantas coisas que não conseguia compreender, uma delas era por que lhe haviam dado aquela incumbência. Considerava-a injusta, contraditória e sua realização parecia impossível, até mesmo para alguém como ele. Veja que seus feitos não eram poucos. Quanta inspiração ele já não havia soprado, quantas primaveras não haviam sido possíveis apenas por conta de seu toque de vida. Entretanto, agora estava lidando com algo ainda mais incompreensível e não entendia a razão de precisarem daquilo. Não haviam homens e mulheres vivido perfeitamente bem sem saber do amor até agora? Que súbita necessidade era essa de dar forma a sentimentos tão ignotos, mesmo entre os seres superiores? Por que tirar de Eros a exclusividade dos segredos daquela arte tão sutil e excelsa?

Precisava no entanto admitir que, e qualquer um de seus pares haveria de reconhecê-lo, ele era o melhor no ofício da formação. Dava forma ao que quer que fosse: moldou os vários tipos de alegria; construiu os tristes muros que separam cada pessoa de seus semelhantes; aperfeiçoou a melancolia, antes tão seca; e, em um esforço digno de grande mérito, mostrou ao mundo sua versão da saudade, que logo foi adotada por todos.

Agora... o amor?

Amor, aquele rompante incendiário que aquieta qualquer chama descontrolada? Aquele que aquece como o verão, desabrocha como a primavera, acolhe como o outono e sossega como o inverno? O amor que é luz, mas nunca é visto, pois tão intenso é seu brilho que ninguém consegue divisar suas fronteiras, fazendo com que ele se confunda com o próprio espaço em que se imergem tudo e todos? O mesmo amor que guia cada ato de bondade e justiça a troco de ser mal compreendido e confundido com todos os outros sentimentos existentes? Como se amor fosse um sentimento; como se o amor brotasse em cada coração de forma individual e não fosse o ritmo de cada batida e a sincronia entre todos os corações pulsantes. Como se o amor não fosse o fôlego que ele mesmo tira dos apaixonados e distribui entre cada ser prestes a receber o sopro da vida. Amor, aquele que antecede à própria vida e se confunde com o ato de criação. E, no entanto, haviam colocado sob sua responsabilidade conceber o que concebe.

Estava tendo um sério bloqueio. Andava para lá e para cá, observava de longe a interação dos casais, interceptava e sem pedir permissão lia (mais por deleite do que por outra coisa) várias das cartas trocadas entre amantes, anotava tantas juras de paixão quanto pudesse testemunhar, desde as mais sucintas até as mais emocionadas. Chegou a recolher lágrimas tímidas de noivos quando viam a noiva na porta, prestes a caminhar sua vida até ele; e as lágrimas aliviadas das noivas quando o sim era recíproco. Entendeu que tentar compreendê-lo seria rir de si mesmo. Muitos artistas tentavam e acreditavam ter grande sucesso na empreitada, mesmo que o amor capturado pelos seus pincéis e canetas-tinteiro fosse uma única faceta de algo com infinitas faces.

O que mais o indignou, porém, provavelmente foi escutar de pobres desamados que o amor fere; dói; trai o corpo e a alma. Que ingenuidade! Como poderiam tomar aquilo por amor? Como não se distingue a pureza e a beleza de um diamante do corte que advém de suas pontas lapidadas caso seja manuseado indevidamente? Indignado, pôs-se a trabalhar com ainda mais afinco, pois decidiu que era hora de o mundo conhecer o que o amor significava de fato. Se eles compreenderiam, não sabia dizer, até apostava que não, mas a obra isentaria o artista de quaisquer explicações.

Tinha em frente a si um espaço em branco. Preencheu-o logo com cores, todas elas, tomando o cuidado de deixar um espaço vazio, para sinalizar que sempre haverá algum lugar para onde ele ainda resta crescer. Formou com elas a forma perfeita – uma esfera –, mas por ser composta de todas as outras formas, tinha também arestas, porque assim deve ser. Fê-la do maior tamanho que conseguiu com seus materiais, tomando cuidado para que ela coubesse no menor dos átomos do menor dos seres vivos, pois em nenhuma célula deveria haver falta de amor. Seu primeiro modelo foram os lábios, mas percebeu logo que era nos olhares que deveria buscar sua inspiração; entretanto, acabou confessando ter usado também as mãos entrelaçadas, os narizes se tocando, os pés se esquentando e o corpo todo quando se molda em um abraço.

Para a finalização da peça, a fim de que ela ficasse irretocável, consultou Diotima de Mantinea e a sacerdotisa ensinou-lhe, como havia ensinado antes a Sócrates, sobre as escaladas do amor. Consultou ainda a São Valentim, que lhe contou segredos nunca antes verbalizados sobre o matrimônio e por que, na vida a dois, os silêncios são mais importantes do que aquilo que se diz um para outro. Contudo, nada talvez tenha o surpreendido mais do que o real simbolismo por trás da troca de alianças... Tudo isso foi material para que o esculpir fosse se moldando na forma última.

Quando deu por terminado, ficou todo orgulhoso – como talvez fosse de se esperar – e sentiu o ímpeto de exibir sua recriação. Por vaidade, procurou logo o Cupido, certo de que ele, autoridade no assunto, aprovaria seu trabalho. O ser divinal, no entanto, após elogiar seu esforço, declarou que estava incompleto. Ora, o que faltava? Em resposta, o Cupido o pegou pela mão e o levou para observar um casal que ele havia flechado tempos atrás.

Eles estavam, ainda, se conhecendo. Era a beleza da descoberta que estavam presenciando. Às vezes, era por meio das conversas: as mais aleatórias possíveis e todas as vezes seguindo rumos inesperados, sem pressa alguma de chegar a algum lugar. Outras, era através de uma cumplicidade muda, pois nem sempre palavras precisam ser gastas. Muitas vezes era com a ajuda dos gestos, do tato, do toque, da sensibilidade. As mais impressionantes eram pelo olhar; bastava eles se cruzarem, a conexão era imediata e a mais sincera de todas, já que os olhos não conseguem mentir. Mas a descoberta também se dava pelos perdões e pelo agradecimento. “Preciso ir”. “Por favor, fique”. “...Fico”.

Cupido perguntou se ele compreendera e ele respondeu que sim, pois verdadeiramente havia entendido sua falha.

Questionou a si mesmo se haveria um jeito de consertá-la, porém sabia que não. Essa sua tarefa estava – como esteve desde o princípio – fadada à incompletude, à imperfeição. Mesmo assim, ele conseguia sentir paz. Percebeu enfim que mesmo o maior dos artistas era menor que o que estava por trás daquelas poucas letrinhas. Em português, apenas quatro. Uma constelação de só quatro grandiosas estrelas e outras milhares menores, invisíveis a olho nu. E um brilho visto do outro lado do universo.

O jeito era torcer para que cada um dos seres fosse capaz de usar essa força com sabedoria. Quando, sem remorsos, decidiu destruir sua obra inacabada, fez isso despedaçando-a em milhões e milhões de pequenos pedaços, que a boa brisa acabou por carregar. Carregou através do tempo e do espaço e foi levando aqueles invisíveis fragmentos. Até hoje, dizem, ainda é possível encontrar alguns por aí, mas – um detalhe – eles só são vistos no contraste com algo muito único: a visão da pessoa amada.

Fonte: Janella Sillito, via Flickr.

terça-feira, 12 de junho de 2018

A maré

Ana está prestes a entrar no metrô. As portas já se abriram e em segundos se fecharão. O casal dá um último abraço e um beijo rápido. Ela carrega duas malas, seu destino é provavelmente o aeroporto e, de lá, alguma terra além das fronteiras imaginativas. Ana se encaminha para o vagão e, antes que ela entrasse, antes que a distância entre eles comece a aumentar a uma velocidade de quase 80 km/h, ele grita uma última declaração. Não é um “eu te amo”. É um “me espera”. Não deu para ver se ela sorriu em concordância ou se ela deixou transparecer sua desesperança de que se veriam novamente em breve. Em instantes, o trem já avançava pelo túnel, deixando o jovem desamparado e sozinho na estação; ainda há bastante gente ao seu redor, mas nenhuma delas é Ana. Após conferir as horas no celular, ele sai em disparada pela escada rolante e desaparece no andar de cima. Talvez estivesse atrasado para o trabalho que tinha conseguido a fim de juntar dinheiro e conseguir pagar uma passagem para ficar junto de sua namorada. Ou talvez não tivesse conseguido segurar a ansiedade e marcou de encontrar a amante logo pela manhã para celebrar que já não precisava tomar cuidado para que não fosse flagrado por Ana. O amor tem desses mistérios.

Se tem algo que pode melhorar substancialmente meu humor, ao menos por uns minutos, é avistar um casal na rua. Pode parecer incompreensível, pois você não conhece aquelas pessoas, não sabe nada do seu contexto, não faz ideia se eles tiveram uma briga homérica pela manhã nem se terminarão naquela mesma noite, porém, naquela captura instantânea da história do casal, eles parecem felizes. Estão se abraçando. Estão rindo juntos. Estão se dando as mãos  —  ainda que por hábito  — , entrelaçando-se em uma rede que os conecta, permitindo-se usar da sensibilidade dos dedos para sentir o outro, para mantê-los em contato, mesmo que o pensamento esteja em outros lugares. Eles se escolheram. Talvez em uma festa, sob o som de uma irritante música eletrônica, quando ela tentou a sorte e perguntou o nome daquele garoto apoiado no balcão. Ou vai ver eles passaram meses conversando, sem perceberem que eram a melhor companhia um do outro, até que o ficar juntos pareceu o rumo mais natural.

Hoje é a data escolhida para celebrar esses encontros. Uma escolha arbitrária e calcada em interesses econômicos, sem dúvida — nós nem sequer temos a chance de nos escorarmos em São Valentim (ao menos nossa comemoração é mais próxima do inverno) —, mas nossa facilidade em cair na rotina pede essa lembrança, um dia no ano que seja, para que não nos esqueçamos de festejar esse amor. E não se trata de qualquer amor. Os gregos já dividiam esse sentimento em vários, porque entendiam que o amor é muitos. Inclusive o amor-próprio, que sem dúvidas é fundamental, não me parece competir com o amor romântico.

“Ame a si mesmo antes de amar outra pessoa”, muitas vezes me disseram, possivelmente ignorando que o amor é a terra mais fértil e que, se você não esperar, sempre lhe dará frutos, muitas vezes na forma de mais do mesmo sentimento. Assim, quem tem amor nunca sofrerá da falta dele, e não há caminho mais fácil para se aceitar do que se doar e, então, conhecer a melhor versão de si.



Artur e Amanda terminaram. Eu suponho que sim, porque hoje ele não está no ônibus. E hoje é sábado. Sábado é o dia em que ele pega o mesmo ônibus que eu, pontualmente neste horário, para visitar Amanda, moradora de uma cidade vizinha. Ao menos, é o que imagino; nós nunca trocamos uma palavra. Hoje senti a ausência de Artur e lamentei por ele. Provavelmente está em casa tocando violão para tentar se distrair, evitando todas as músicas que ele tocava especialmente para Amanda — e são muitas. Ele adorava tocar enquanto ela o acompanhava com sua voz carregada de um delicioso sotaque. Artur até chegou a arriscar compor algumas canções para sua amada. Já tinha um novo rascunho que planejara finalizar antes do aniversário dela, em algumas semanas. Agora, não tinha mais sentido encontrar uma boa rima para “deslumbrado”. Ele ainda usava a palheta que ela lhe dera no Natal, personalizada com o nome dos dois e a data em que começaram o romance. Festejavam todos os anos aquele primeiro beijo no meio de sorrisos. Aquele momento imortalizável que deveria ter durado para sempre, mas foi cruel o suficiente para acabar. Deixou saudades, remorso, lágrimas e diversos presentes trocados, inclusive o pingente que ele mantinha no pescoço como sinal de resistência. Ainda era cedo para dar o término como definitivo. Fazia apenas dois dias a discussão, ainda havia esperanças. Mesmo que Amanda tenha alegado estar confusa e apesar de ela não ter derramado uma lágrima sequer ao explicar didaticamente sua decisão. Sua não; de seu coração, ela disse. Talvez neste exato minuto o celular de Artur esteja tocando. O coração dele dispara. É Amanda. Ele sabia que a relação deles era pra valer. Tantas coisas ainda havia para eles fazerem juntos! Tantas viagens, tantos restaurantes que queriam conhecer, o cachorro que iriam adotar em conjunto (já tinham até uma lista de nomes!)… O rapaz agarra o celular com avidez e atende sem olhar. Era engano.

Dos conselhos para hoje, o mais importante deles certamente não é “compre flores”, nem “compre chocolate” ou “compre qualquer coisa só para não passar em branco”, nem mesmo “surpreenda a pessoa que você ama” — apesar de ser bem difícil fugir dessa chuva de imperativos vazios. A questão, que não vale somente para hoje, é: seja grato. É como dizem certas músicas…

“Jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver alguém que você gostaria que estivesse sempre com você…”

Pois bem, leve a sério. Há literalmente bilhões de pessoas no mundo e se alguém, dentre todas as opções (que não são tantas, mas estão cada vez maiores), escolheu você, sinta-se privilegiado. Não foi uma escolha para compor um time e jogar uma partida de 90 minutos. Foi uma escalação para o mais alto grau de companheirismo; para estar ao seu lado em qualquer circunstância, para não te deixar só e suportar contigo suas dores; foi para se esforçar em te fazer feliz, celebrar cada passo adiante e cuidar para que você não retroceda. Isso tudo será o famigerado amor? Acredito que não. Mas um relacionamento não se constrói apenas com amor. É um amalgama dos mais poderosos que, quando bem cerzido, é um belo exemplo de bondade, paciência, carinho, paixão e diversas outras virtudes tão humanas.

Talvez você já tenha dado mil abraços na pessoa adorada, mas o de hoje será especial. Não porque o dia é especial; o dia é o mais ordinário de todos e pelo mundo afora há milhões de pessoas com preocupações maiores que o ursinho de pelúcia que você comprou e tem medo de ela não gostar. Mas por trás de toda essa agitação materialista, esconde-se uma mensagem trazida do fundo da natureza, que hoje, como todos os dias, tem a atenção voltada para você e seu cônjuge, e a mensagem diz: ame. Ame o quanto for possível. Ame, seja o melhor de si mesmo. Ame, porque o elo que o verdadeiro amor constrói, é resistente ao calor de uma forja, a uma broca de diamante, ao espaço e ao tempo. Diferente de flores e chocolates.

Anita se acabava em lágrimas, alheia aos curiosos que cruzavam pelo meio da praça observando a cena. Alexandre também não se importava com os olhares, só parecia querer o bem da moça. Seu abraço era um escudo de consolo, protegendo-a contra insignificâncias externas. Ela havia perdido a data de inscrição para o vestibular. Ela havia perdido o emprego. Ela havia perdido a avó. Alguma coisa nela estava agora faltando, havia um buraco que não se preenche fácil e muito lentamente se cicatriza. Alexandre não era habilidoso com a linha, e ainda que fosse, seria incapaz de costurar o coração da menina e suturar essa latente ferida. Entretanto, lá estava ele aquecendo-a com um abraço. Um abraço que, com certeza, não era só físico. E, ao mesmo tempo que dava atenção ao vazio, embalava-a com palavras de conforto. Ela podia contar com ele. Ele podia contar com ela. Contavam juntos e chegavam ao mesmo resultado: um.

“É impossível ser feliz sozinho”, alegou o poeta. Hoje acho que entendo o que ele quis dizer. É claro que você não precisa se envolver com alguém para encontrar sua felicidade. Não se trata desse tipo de impossibilidade. A bem da verdade, eu acredito que você pode até encontrar a felicidade só, em uma caverna, consumindo apenas o necessário, sem afetos, sem amigos, sem família, distante de tudo e de todos. A questão, ouso afirmar, é outra: por que alguém iria queria ser feliz assim?



Bônus :)