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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Lira dos Trinta Anos

(Sem métrica, sem rima, sem maiores preocupações.)

Para ler ao som de: "30", de Adele.


Demora trinta anos para chegar e, ainda assim, chega sem sobreaviso.

Um verdadeiro susto o movimento repentino da casa das dezenas, é preciso ter cuidado com os números.

Vinte. Vinte e poucos. Vinte e tantos. Trinta.

Os fios brancos infiltrados provocam uma risada,

a enxaqueca em reação a noites maldormidas suscita inquietude,

a dor no abaixar e no levantar, frustração.

Não deveriam anunciar-se aos quarenta? Quem resolveu adiantar as coisas?

(Melhor ignorar os pensamentos sórdidos sobre a postura desmontada na cadeira, a alimentação meio mal balanceada e as pernas que não correm há meses.)

Quem adiantou também os relógios? E trocou os calendários? E inverteu as estações?

Quem disse que o tempo é relativo, sendo que ele vem e vai de forma tão absoluta?

Muitas perguntas, nenhuma resposta: quão inusitado! A essa altura?

Cadê a vida que não se mostra? Já não teve tempo suficiente? Mais interrogações.

A luz da ignorância está um pouco mais forte. A luz no fim do túnel, que antes nem se via, também já se divisa, embora seja ainda

um ponto brilhoso e distante, como uma frágil

estrela.

Sente-se a estranheza amarga de se estar em algum ponto entre a juventude e a velhice – talvez no meio, talvez ainda no primeiro terço, quem há de saber?

Inocentes fomos adolescentes que acreditavam em certezas; e, no entanto, quem poderá culpar-nos?

Pareciam tão tangíveis, a alguns poucos anos de distância.

Os trinta eram quase um ponto de chegada, de vitória.

E então... (Pausa.)

Não há quem não tenha virado colecionador; no mínimo, acumulador: de decepções, expectativas arruinadas, corações partidos e desilusões a encher prateleiras.

Bem-vindo aos trinta.

Tudo cessa? Tudo continua. A lei da impermanência não alcança a rotina de desafios, dificuldades e insatisfações. Culpa de ninguém. 

Quem tenta confortar, diz acalme-se e diz ainda: estar vivo é um privilégio.

A bem da verdade, só há duas opções: chegar aos trinta ou não chegar –

e quem não chega é porque ficou

pelo caminho.

Quanto a mim, estou aqui. Eu e você.

Ainda respiro vida, ainda tenho muito a aprender, sentir, experimentar, vivenciar,

muito pelo que me apaixonar.

E mesmo que não houvesse, tudo valeu a pena até aqui

e continuará valendo, tenho certeza –

a certeza que me dão minhas três décadas,

que poderei ostentar assim que com elas fizer as pazes.

Até lá, observo nos brilhos do céu o encanto do trigésimo

porque é ancestral e profunda sua semântica.

Como se não fosse um número.

Como se não tivesse forma ou tamanho

e fosse maior que os quatorze bilhões do Universo.

Será possível?

Aos vinte, talvez fosse.

Aos trinta, o impossível tem novas fronteiras

e o mundo é,

ao mesmo tempo,

mais doce e mais amargo.

Um brinde aos novos sabores,

aos novos amores

e aos vencedores

desta batalha sem fim.

Que sejam bem-sucedidas como

as campanhas de Alexandre Magno,

o Grande,

que em trinta e dois anos

conquistou boa parte do mundo (conhecido);

e como as composições de Mozart,

também Grandioso,

austríaco que,

em trinta e cinco anos,

conquistou boa parte do mundo (conhecido).

Que Assim Seja – clamo.

Todavia não é deles

o reflexo que eu enxergo no espelho.

Pouco importa.

É de outro alguém que sonha

revolucionar o mundo por meio de suas ações.

Pequenas ações, mas jamais insignificantes.

Que aos trinta não me falte para tanto oportunidades,

saúde,

tempo

e vida.

O resto será conquista.

Dou sempre as boas-vindas a quem quiser me acompanhar:

estendo a mão àqueles que vêm atrás;

oriento-me por aqueles que já chegaram lá.

Por trinta anos, eu subi. Agora, tenho uma boa visão de tudo. Posso ver longe, apesar da miopia (que só tende a piorar).

Agora, preciso seguir. O topo ainda está distante e não há tempo a perder.

Se há trinta mil razões para permanecer inerte,

há ao menos uma para acreditar que ainda me resta muito trabalho pela frente e que preciso honrar a chance que me foi dada.

Estou vivo. Respiro.

É o suficiente

e é mais do que eu poderia pedir.

Há esperança

para essa minha trajetória balzaquiana.

Basta olhar para cima e buscar o sol para entender:

ainda há Luz.


Obs.: Publicado após dois meses de procrastinação, porque algumas coisas não mudam com a idade...

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Os fabulosos Anos 20


Eu nunca soube direito o que dizer a um ano que termina. Ao que chega, é simples; não é necessário dar instrução alguma, ele mesmo dá um jeito de se ajustar no espaço vacante e começa seu trabalho com impecável maestria. As despedidas, porém, são meu ponto fraco. E, quase sempre, deixam aquela sensação agridoce de alívio e culpa. Finalmente, mais um ciclo que se renova; mas, espera, talvez eu não tenha me despedido dele como deveria, honrado todas as memórias, demonstrado gratidão ou questionado uma última vez uns porquês. Assim o é. A cada 31 de dezembro. Eu já passei por quase trinta desses e o engraçado é que, em vez de melhorar, sempre pioram. É quase que inevitável que cresça a vontade de um adeus solene, enquanto minhas resoluções de ser mais desapegado falham miseravelmente mais uma vez.

Este ano (ou ano passado? ou de lá pra cá?), esse martírio atingiu seu ápice, já que estamos terminando uma década inteira. Os Anos 10. Até pouco tempo atrás, período famoso pelas chagas da 1ª Guerra Mundial. A partir de hoje, uma época em que tanto aconteceu que é difícil defini-la em um só evento ou apenas uma revolução tecnológica. Portanto, fica o questionamento: como se encerra toda uma década? Tentei responder a isso durante as últimas semanas, conforme ameaçava-se a virada do calendário, mas confesso que falhei.

O melhor que consegui foi uma missão que autoestipulei de escrever todos os dias, nem que seja apenas um pouco. Questão de criar o hábito. Bom, este texto é meu começo favorável. Seria uma pena se eu não soubesse que falharei miseravelmente muito antes de terminar o ano. Tenho minhas dúvidas se sequer durará até o mês que vem. Ok, preciso trabalhar no meu negativismo. De toda forma, foi o máximo que consegui para festejar não somente a chegada de uma década nova em folha como um ano de dobradinhas. 20-20. Quando presenciaremos essa maravilha matemática de novo? Daqui a 1100 anos? Parece-me melhor e mais razoável que aproveitemos agora. Pois bem, são 366 nasceres solares pela frente – e eu não faço a mínima noção de o que fazer com eles. E você?

No final, acho que é isto: mais um ano em que fingimos saber o que estamos fazendo. Tomara que possamos nos aproximar ao menos alguns passos do caminho correto e que esse duplo 20 seja auspicioso. Sejamos bem-vindos à nova década! Vai ser fascinante, disso eu tenho certeza. E, bem... nos encontramos em 2030? Combinado então. Até já!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Parem o mundo. Sério.

Eu detesto entrar em livrarias.
Se alguém perguntasse a pessoas que me conhecem, muitos diriam que eu adoro livrarias. E eu adoro. Mas odeio também. Odeio ver pilhas e pilhas de livros, torres de castelos formados por páginas e páginas esperando ser lidas, milhões - talvez bilhões - de caracteres comprimidos para formar belas histórias... sabendo que eu nunca as lerei todas. E é aí que está o problema. De todas as dezenas de centenas de livros, lerei muito poucos: talvez 100, talvez 500 ou talvez nem isso. Os outros, nunca vou chegar a conhecer. Talvez o melhor livro que eu poderia ler na vida está entre esse "resto" que eu seria obrigado a ignorar. Pior: como escolher dentre tantas opções qual levar para casa? Pela capa? Ah, mas um livro péssimo pode parecer espetacular por fora... Pela sinopse? Mas quantas sinopses atraentes não há! (aliás, não é essa a função de toda sinopse, ser atraente?) Resultado: acabo comprando um livro só ou nenhum, quando a minha vontade era ficar sentado no chão da livraria por anos a fio e poder ao menos folhear tantas as páginas quanto meus dedos aguentarem.
Como se não bastasse a sessão de tortura mental, algum habitante sádico do submundo sobe à superfície a cada dois anos e monta uma bienal de livros. Mais precisamente a Bienal Internacional de São Paulo, provavelmente a maior de toda a América Latina. Sempre que eu vou, eu entro no enorme galpão sorrindo como quem ganha no Natal o presente esperado desde a Páscoa, mas, bem lá no fundo, minha vontade é dar meia volta e ir embora. Por quê? Simples: é muito difícil pra mim encarar a realidade de que eu nunca terei tempo hábil para consumir todos aqueles infinitos (ou quase isso) e irresistíveis livros.
Mas tudo bem, não é sempre que vou a uma livraria e tampouco a uma Bienal, então isso não chega a ser um problema. O problema mesmo é o que me espera quando eu chego em casa: uns 30 livros comprados e não lidos, uma lista de 180 livros que eu não tenho e quero ler, 150 filmes para ver, 115 álbuns para ouvir, 30 blogs desatualizados no GReader e pelo menos uns 1000 sites favoritos (em 6 ou 7 navegadores diferentes) para abrir um por um. Parece pouco? É porque eu não estou considerando os quatro seriados que eu acompanho regularmente, os que eu estou na metade e os que já estão na 4ª ou 5ª temporada e eu nem comecei a ver ou só vi o piloto. Somando tudo, deve resultar em cerca de 12 seriados - sendo que só UM deles (Fringe) tem, aproximadamente, 74 horas até agora.
E ainda não acabou! Não acabou porque o mundo continua girando a mais de 1.600km/h e os únicos seres vivos do planeta que detêm o domínio da linguagem continuam produzindo cada vez mais conteúdo: livros, filmes, séries, revistas, etc etc etc. Solução? A solução não importa, importa a consequência, que é a Síndrome do Excesso de Informação: a síndrome daqueles que sabem que há coisa demais para ser vista, ouvida e cheirada em tão pouco tempo. Talvez nem fosse um problema, se fosse só isso que a gente precisasse fazer da vida, o que não é verdade nem de longe.
O paradoxal de tudo isso é que eu não acho ruim de ter tantas opções para me informar, me divertir ou adquirir conhecimento. Só o que eu queria é que, durante algumas horas, a Terra ficasse em pause para que eu pudesse, enfim, dar conta de tudo isso e ainda me dedicar à escrita.
Na verdade, eu tenho muitas outras coisas a dizer sobre o assunto, mas é melhor eu parar por aqui, porque, como já deu pra notar, eu realmente tenho muito a fazer...