sexta-feira, 8 de maio de 2020

Casulo

Percebi que tinha algo errado quando comecei a trocar o dia pela noite. Minha rotina de almoçar tarde já vinha desde os tempos da agência, porém agora o almoço havia tomado o lugar da ceia: eu degustava um macarrão com molho caseiro observando o cair do sol. Por volta de meia-noite, eu ia preparar minha janta, que me sustentaria noite afora. Elaborava os mais requintados pratos que conseguia, tomando cuidado para não fazer muito barulho e perturbar os vizinhos que já dormiam. Ou talvez não dormissem, como eu, que jamais tivera um sono de qualidade desde que isso começou. No entanto, dia após dia, insistia em colocar a cabeça no travesseiro e tentar pregar os olhos. Para atrapalhar, ainda precisava lidar com a luz que ignorava as cortinas e inundava o quarto. A essas horas, em tempos menos catastróficos, eu estaria na minha segunda ou terceira xícara de café, chegando ao auge do meu estado de vitalidade laboral.

Depois de duas semanas, usei alguns sacos de lixo e outros remendos para cobrir os vidros e poder dar ao meu corpo as condições de repousar, uma compensação por ter bagunçado todo o meu relógio biológico. Não adiantou, mas pelo menos agora eu tinha um canto escuro no aparamento, um ambiente mais propício para refletir sobre tudo o que estava acontecendo. Eu poderia até fazer isso durante a noite ou de madrugada, mas estes eram meus novos horários preferidos para cumprir com todas as minhas obrigações diárias, com a empresa e com minha própria casa. Nada mais favorável para a concentração e a produtividade do que trabalhar sob o silêncio noturno. Quando amanhecia e o movimento dava sinais de despertar, era minha deixa para me recolher à escuridão artificial do meu quarto.

Em alguns dias, a fraca claridade que ainda conseguia espreitar pela janela passou a me incomodar e eu fui obrigado a pregar dois cobertores por cima para barrar qualquer feixe mais atrevido; executei esse projeto com tanto esmero que já nem sabia como faria para retirar todas as camadas de bloqueio e abrir a janela novamente. Não havia problema: a esperança de que eu precisasse abri-la para observar algo lá fora parecia muito, muito distante. Mais mórbidas que as trevas que me embalavam eram as que me consumiam por dentro. Às vezes eu pensava haver me esvaziado, contudo quando eu investigava mais a fundo, descobria que estava preenchido por essa desilusão e amargura.

Se espiava pela janela e via as ruas todas desertas, me desesperava. Agora, se – o que acontecia com mais frequência – vislumbrava pessoas a caminhar ou carros zanzando para lá e para cá, minha reação era muito pior. Crescia dentro de mim um ódio, eu não sabia exatamente de quê ou de quem, só sabia que me espetava. E que aquele sentimento, de mãos dadas com a angústia que não me largava, retorcia todos os meus órgãos e me sufocava pelo menos uma vez por dia.

Achei melhor não olhar mais. Ao menos, não para baixo. Olhava apenas reto, pois no prédio em frente havia ela. Ela que também estava confinada, embora eu desconfiasse que fosse ao mercado ao menos uma vez por semana. Eu sei que nem todos fizeram como eu e estocaram alimentos suficientes para meses, no entanto eu ainda a alertava para só sair de casa quando já não houvesse um único pão com molho de tomate para fazer as vezes de uma refeição. Ah, mas ela não queria ficar sem o pão brioche dela... E as verduras sempre frescas... Não, ela não me contou, mas eu sei. Nossa comunicação ficou um tanto prejudicada depois que meu celular caiu na pia – enquanto eu tentava assistir a uma live e lavar a louça – e não quis mais ligar. Desde então, eu não tenho notícias de mais ninguém. E certamente não me arriscarei no cenário apocalíptico em busca de alguém que o conserte: nem sei mais onde deixei as chaves da porta da frente. Voltei àquela era esquecida em que, para saber de alguém, era preciso visitá-lo. Não vi nisso problemas; meus pais eram os únicos que poderiam depender de mim de alguma forma e, da última vez em que nos falamos, eles estavam muito bem. Melhores do que eu inclusive, já que lá naquela casa de campo ninguém chega; e, de todo modo, como eu poderia contribuir com alguma coisa estando em outro estado?

Chateou-me, contudo, não poder mais jogar conversa fora com ela. Muitas vezes eu trocava as manhãs de sono por uma ou duas horas de falatório com aquela mulher de olhos brilhantes e sotaque engraçado. Agora, só um aceno da janela. Era tudo. De algum jeito conseguimos combinar o horário e sempre que dava cinco horas da tarde, estávamos os dois nas suas respectivas janelas, sacudindo as mãos, mandando beijos, simulando os abraços que retribuiríamos quando tudo isso acabasse – e eu aproveitava para exibir minhas novas obras culinárias. Alguns dias ela se esquecia, mas eu não achava ruim; também não a cobraria quando um dia voltássemos a estar cara a cara. Entendo que às vezes, em tempos como esses, tempo é um conceito confuso e fugidio.

Estranho, realmente, foi quando ela deixou de aparecer três dias seguidos. E então no quarto, quinto, sexto. Uma semana e eu já amargava mais essa desilusão, pronta para ser arquivada com as outras. Talvez, contra todos os meus princípios, eu pudesse ter entrado em alguma rede social e enviado mensagens de interrogação, no entanto eu não queria achar que estava desesperado a esse ponto. Eu tentava com certa insistência recuperar meu celular, em vão. A tela preta era tudo o que ele tinha a me oferecer; além de quase que uma sombra do meu próprio reflexo. Não era o suficiente. Eu precisava dela. Das suas palavras, duras ou não. Da sua voz. Do seu sotaque. O seu afago também fazia falta, mas eu sentia que poderia pacientemente esperar por ele.

Alguns dias depois, estava deitado em meu sofá, tentado a ligar a televisão – o que não acontecia há mais de um mês –, quando pensei ter avistado alguém na janela dela. Seria ela enfim? Estava longe das cinco horas, mas a essa altura quem ainda olha no relógio? Levantei-me para observar mais de perto, porém logo o vulto desapareceu e não retornou pela próxima meia hora, até eu desistir da tocaia. Não saia da minha mente, todavia, que a figura parecia ser masculina. Mesmo eu só tendo visto-o de relance, na minha memória o contorno, a roupa e o andar pertenciam a um homem, o que era curioso, já que ela morava com a tia apenas.

Estranho. Naquele mesmo dia, pulei alguma refeição, porque passei horas buscando material dentro da minha própria casa para fazer naquela janela o que já havia feito no meu quarto. Já não havia mais o que ver. O barulho do trânsito me dizia que o fluxo de pessoas ainda não cessara, todavia não havia nada que eu pudesse fazer para abafar o som. Entretanto, eu podia, sim, colaborar para que eu não caísse na tentação de espiar a vida na cidade, que decerto estaria debilitada em poucos dias.

Cobri tudo. Todos os vidros. Bati pregos, sem me preocupar com os furos, nem com o trabalho que teria, no final, para reverter tudo aquilo. Estraguei roupas de cama, arrastei móveis, tudo enquanto sussurrava a mim mesmo do futuro que não se preocupasse, era para o nosso próprio bem. Quando isso tudo passar, pensei, descobrirei cada uma das janelas com o prazer de quem está prestes a enxergar o colorido da vida pela primeira vez. Haverá movimento em todo lugar e isso, em vez de rancor, me trará alegria como nunca antes. Mas, por agora, não preciso de nada disso. Também não preciso de notícias ou tragédias em tempo real. Nem dos meus amigos e familiares, nem mesmo do mundo.

Eu tinha meu próprio mundo e nele me fechei. Ele era escuro, iluminado apenas artificialmente, mas era livre de vírus. Na verdade, era livre também de qualquer expressão de otimismo ou vontade. No começo, pareceu-me uma troca justa. Alguns meses depois, eu estava cansado demais para decidir sobre o valor de qualquer coisa. O barulho lá embaixo havia se intensificado, eu só não sabia se era fruto de uma crescente inconsequência das pessoas ou se, de fato, a cidade estava esterilizada. Na dúvida, não arrisquei. Tinha certeza de que, quando isso tudo acabasse, alguém bateria na minha porta para me avisar que era seguro sair. Talvez seria ela a bater. Viria até mim com saco de pipocas para estourarmos no meu micro-ondas e assistirmos a um filme francês. Como nos velhos tempos.

E o que normal já foi um dia, normal de novo seria.

Até lá, só me resta aguardar.

Em silêncio.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Os fabulosos Anos 20


Eu nunca soube direito o que dizer a um ano que termina. Ao que chega, é simples; não é necessário dar instrução alguma, ele mesmo dá um jeito de se ajustar no espaço vacante e começa seu trabalho com impecável maestria. As despedidas, porém, são meu ponto fraco. E, quase sempre, deixam aquela sensação agridoce de alívio e culpa. Finalmente, mais um ciclo que se renova; mas, espera, talvez eu não tenha me despedido dele como deveria, honrado todas as memórias, demonstrado gratidão ou questionado uma última vez uns porquês. Assim o é. A cada 31 de dezembro. Eu já passei por quase trinta desses e o engraçado é que, em vez de melhorar, sempre pioram. É quase que inevitável que cresça a vontade de um adeus solene, enquanto minhas resoluções de ser mais desapegado falham miseravelmente mais uma vez.

Este ano (ou ano passado? ou de lá pra cá?), esse martírio atingiu seu ápice, já que estamos terminando uma década inteira. Os Anos 10. Até pouco tempo atrás, período famoso pelas chagas da 1ª Guerra Mundial. A partir de hoje, uma época em que tanto aconteceu que é difícil defini-la em um só evento ou apenas uma revolução tecnológica. Portanto, fica o questionamento: como se encerra toda uma década? Tentei responder a isso durante as últimas semanas, conforme ameaçava-se a virada do calendário, mas confesso que falhei.

O melhor que consegui foi uma missão que autoestipulei de escrever todos os dias, nem que seja apenas um pouco. Questão de criar o hábito. Bom, este texto é meu começo favorável. Seria uma pena se eu não soubesse que falharei miseravelmente muito antes de terminar o ano. Tenho minhas dúvidas se sequer durará até o mês que vem. Ok, preciso trabalhar no meu negativismo. De toda forma, foi o máximo que consegui para festejar não somente a chegada de uma década nova em folha como um ano de dobradinhas. 20-20. Quando presenciaremos essa maravilha matemática de novo? Daqui a 1100 anos? Parece-me melhor e mais razoável que aproveitemos agora. Pois bem, são 366 nasceres solares pela frente – e eu não faço a mínima noção de o que fazer com eles. E você?

No final, acho que é isto: mais um ano em que fingimos saber o que estamos fazendo. Tomara que possamos nos aproximar ao menos alguns passos do caminho correto e que esse duplo 20 seja auspicioso. Sejamos bem-vindos à nova década! Vai ser fascinante, disso eu tenho certeza. E, bem... nos encontramos em 2030? Combinado então. Até já!

terça-feira, 12 de junho de 2018

A maré

Ana está prestes a entrar no metrô. As portas já se abriram e em segundos se fecharão. O casal dá um último abraço e um beijo rápido. Ela carrega duas malas, seu destino é provavelmente o aeroporto e, de lá, alguma terra além das fronteiras imaginativas. Ana se encaminha para o vagão e, antes que ela entrasse, antes que a distância entre eles comece a aumentar a uma velocidade de quase 80 km/h, ele grita uma última declaração. Não é um “eu te amo”. É um “me espera”. Não deu para ver se ela sorriu em concordância ou se ela deixou transparecer sua desesperança de que se veriam novamente em breve. Em instantes, o trem já avançava pelo túnel, deixando o jovem desamparado e sozinho na estação; ainda há bastante gente ao seu redor, mas nenhuma delas é Ana. Após conferir as horas no celular, ele sai em disparada pela escada rolante e desaparece no andar de cima. Talvez estivesse atrasado para o trabalho que tinha conseguido a fim de juntar dinheiro e conseguir pagar uma passagem para ficar junto de sua namorada. Ou talvez não tivesse conseguido segurar a ansiedade e marcou de encontrar a amante logo pela manhã para celebrar que já não precisava tomar cuidado para que não fosse flagrado por Ana. O amor tem desses mistérios.

Se tem algo que pode melhorar substancialmente meu humor, ao menos por uns minutos, é avistar um casal na rua. Pode parecer incompreensível, pois você não conhece aquelas pessoas, não sabe nada do seu contexto, não faz ideia se eles tiveram uma briga homérica pela manhã nem se terminarão naquela mesma noite, porém, naquela captura instantânea da história do casal, eles parecem felizes. Estão se abraçando. Estão rindo juntos. Estão se dando as mãos  —  ainda que por hábito  — , entrelaçando-se em uma rede que os conecta, permitindo-se usar da sensibilidade dos dedos para sentir o outro, para mantê-los em contato, mesmo que o pensamento esteja em outros lugares. Eles se escolheram. Talvez em uma festa, sob o som de uma irritante música eletrônica, quando ela tentou a sorte e perguntou o nome daquele garoto apoiado no balcão. Ou vai ver eles passaram meses conversando, sem perceberem que eram a melhor companhia um do outro, até que o ficar juntos pareceu o rumo mais natural.

Hoje é a data escolhida para celebrar esses encontros. Uma escolha arbitrária e calcada em interesses econômicos, sem dúvida — nós nem sequer temos a chance de nos escorarmos em São Valentim (ao menos nossa comemoração é mais próxima do inverno) —, mas nossa facilidade em cair na rotina pede essa lembrança, um dia no ano que seja, para que não nos esqueçamos de festejar esse amor. E não se trata de qualquer amor. Os gregos já dividiam esse sentimento em vários, porque entendiam que o amor é muitos. Inclusive o amor-próprio, que sem dúvidas é fundamental, não me parece competir com o amor romântico.

“Ame a si mesmo antes de amar outra pessoa”, muitas vezes me disseram, possivelmente ignorando que o amor é a terra mais fértil e que, se você não esperar, sempre lhe dará frutos, muitas vezes na forma de mais do mesmo sentimento. Assim, quem tem amor nunca sofrerá da falta dele, e não há caminho mais fácil para se aceitar do que se doar e, então, conhecer a melhor versão de si.



Artur e Amanda terminaram. Eu suponho que sim, porque hoje ele não está no ônibus. E hoje é sábado. Sábado é o dia em que ele pega o mesmo ônibus que eu, pontualmente neste horário, para visitar Amanda, moradora de uma cidade vizinha. Ao menos, é o que imagino; nós nunca trocamos uma palavra. Hoje senti a ausência de Artur e lamentei por ele. Provavelmente está em casa tocando violão para tentar se distrair, evitando todas as músicas que ele tocava especialmente para Amanda — e são muitas. Ele adorava tocar enquanto ela o acompanhava com sua voz carregada de um delicioso sotaque. Artur até chegou a arriscar compor algumas canções para sua amada. Já tinha um novo rascunho que planejara finalizar antes do aniversário dela, em algumas semanas. Agora, não tinha mais sentido encontrar uma boa rima para “deslumbrado”. Ele ainda usava a palheta que ela lhe dera no Natal, personalizada com o nome dos dois e a data em que começaram o romance. Festejavam todos os anos aquele primeiro beijo no meio de sorrisos. Aquele momento imortalizável que deveria ter durado para sempre, mas foi cruel o suficiente para acabar. Deixou saudades, remorso, lágrimas e diversos presentes trocados, inclusive o pingente que ele mantinha no pescoço como sinal de resistência. Ainda era cedo para dar o término como definitivo. Fazia apenas dois dias a discussão, ainda havia esperanças. Mesmo que Amanda tenha alegado estar confusa e apesar de ela não ter derramado uma lágrima sequer ao explicar didaticamente sua decisão. Sua não; de seu coração, ela disse. Talvez neste exato minuto o celular de Artur esteja tocando. O coração dele dispara. É Amanda. Ele sabia que a relação deles era pra valer. Tantas coisas ainda havia para eles fazerem juntos! Tantas viagens, tantos restaurantes que queriam conhecer, o cachorro que iriam adotar em conjunto (já tinham até uma lista de nomes!)… O rapaz agarra o celular com avidez e atende sem olhar. Era engano.

Dos conselhos para hoje, o mais importante deles certamente não é “compre flores”, nem “compre chocolate” ou “compre qualquer coisa só para não passar em branco”, nem mesmo “surpreenda a pessoa que você ama” — apesar de ser bem difícil fugir dessa chuva de imperativos vazios. A questão, que não vale somente para hoje, é: seja grato. É como dizem certas músicas…

“Jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver alguém que você gostaria que estivesse sempre com você…”

Pois bem, leve a sério. Há literalmente bilhões de pessoas no mundo e se alguém, dentre todas as opções (que não são tantas, mas estão cada vez maiores), escolheu você, sinta-se privilegiado. Não foi uma escolha para compor um time e jogar uma partida de 90 minutos. Foi uma escalação para o mais alto grau de companheirismo; para estar ao seu lado em qualquer circunstância, para não te deixar só e suportar contigo suas dores; foi para se esforçar em te fazer feliz, celebrar cada passo adiante e cuidar para que você não retroceda. Isso tudo será o famigerado amor? Acredito que não. Mas um relacionamento não se constrói apenas com amor. É um amalgama dos mais poderosos que, quando bem cerzido, é um belo exemplo de bondade, paciência, carinho, paixão e diversas outras virtudes tão humanas.

Talvez você já tenha dado mil abraços na pessoa adorada, mas o de hoje será especial. Não porque o dia é especial; o dia é o mais ordinário de todos e pelo mundo afora há milhões de pessoas com preocupações maiores que o ursinho de pelúcia que você comprou e tem medo de ela não gostar. Mas por trás de toda essa agitação materialista, esconde-se uma mensagem trazida do fundo da natureza, que hoje, como todos os dias, tem a atenção voltada para você e seu cônjuge, e a mensagem diz: ame. Ame o quanto for possível. Ame, seja o melhor de si mesmo. Ame, porque o elo que o verdadeiro amor constrói, é resistente ao calor de uma forja, a uma broca de diamante, ao espaço e ao tempo. Diferente de flores e chocolates.

Anita se acabava em lágrimas, alheia aos curiosos que cruzavam pelo meio da praça observando a cena. Alexandre também não se importava com os olhares, só parecia querer o bem da moça. Seu abraço era um escudo de consolo, protegendo-a contra insignificâncias externas. Ela havia perdido a data de inscrição para o vestibular. Ela havia perdido o emprego. Ela havia perdido a avó. Alguma coisa nela estava agora faltando, havia um buraco que não se preenche fácil e muito lentamente se cicatriza. Alexandre não era habilidoso com a linha, e ainda que fosse, seria incapaz de costurar o coração da menina e suturar essa latente ferida. Entretanto, lá estava ele aquecendo-a com um abraço. Um abraço que, com certeza, não era só físico. E, ao mesmo tempo que dava atenção ao vazio, embalava-a com palavras de conforto. Ela podia contar com ele. Ele podia contar com ela. Contavam juntos e chegavam ao mesmo resultado: um.

“É impossível ser feliz sozinho”, alegou o poeta. Hoje acho que entendo o que ele quis dizer. É claro que você não precisa se envolver com alguém para encontrar sua felicidade. Não se trata desse tipo de impossibilidade. A bem da verdade, eu acredito que você pode até encontrar a felicidade só, em uma caverna, consumindo apenas o necessário, sem afetos, sem amigos, sem família, distante de tudo e de todos. A questão, ouso afirmar, é outra: por que alguém iria queria ser feliz assim?



Bônus :)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O Menino Que Reviveu: uma resenha de "Harry Potter and the Cursed Child" [sem spoilers]

A cicatriz não incomodara Harry nos últimos dezenove anos. Tudo estava bem.
Só que não.

Créditos: Mental_floss (montagem) / Amazon (capa) / iStock (fundo)

Poucos livros chegaram tão de surpresa quanto “Harry Potter and the Cursed Child”. Não me refiro à data de lançamento – 31 de julho deste ano –, que não só foi aguardada pelos fãs durante semanas, como é até bastante óbvia: o dia coincide tanto com o aniversário de Harry, quanto com o de sua própria autora/criadora. O fato surpreendente é anterior a isso: desde que colocou um ponto final (plot twist: era um ponto-e-vírgula) na saga de Harry, Rony & Hermione, Joanne Rowling não descartava completamente a possibilidade de um oitavo livro, mas sempre disse (até ano passado) que achava improvável de acontecer, uma vez que a história, bem como seu final, fora muito bem amarrada. Logicamente, isso fez com que a maioria de seus seguidores – com exceção dos fãs brasileiros que-não-desistem-nunca – admitisse que Harry Potter 8 ficaria somente no mundo das ideias e, quem quisesse, que se contentasse com fanfics. Hoje a gente percebe que, uma vez mais, JKR, ao nunca dizer nunca, estava tão somente dando uma de sábia.

Seria injusto falar que Cursed Child – ou “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, na tradução brasileira que sairá pela Rocco em 31 de outubro – é uma continuação da série. Na verdade, ela não é; mas é igualmente verdade que, nesse novo livro, somos confrontados novamente com muitos dos antigos personagens, e, claro, acabamos conhecendo seu destino, mais de dezenove anos depois da Batalha de Hogwarts. Também é importante ressaltar que as 320 páginas tratam, na realidade, do roteiro de uma peça homônima, encenada no Palace Theatre, em Londres (Inglaterra), em duas partes. Isso significa que o livro é, basicamente, como as obras de Shakespeare: apenas diálogos, entremeados por breves descrições, como:

“Uma estação cheia e movimentada. Apinhada de transeuntes tentando ir a algum lugar. No meio de toda aquela circulação e confusão, duas gaiolas sacodem em cima dos carrinhos que os dois garotos, Tiago Potter e Alvo Potter, empurram. Logo atrás, vem a mãe deles, Gina. Seguem-nos um homem de trinta e sete anos, Harry, e sua filha, Lílian, em seus ombros.”
[primeiras linhas, tradução livre]



Um outro ponto, que quem leu a sinopse já sabe, é que os protagonistas, desta vez, são o Albus/Alvo e o Scorpius/Escórpio* Malfoy, e não os seus pais. Mas, de novo, isso não impede que haja várias cenas apenas com os personagens originais (o trio, Draco etc.) – e menções a tantos outros que não chegam a dar as caras, então, de certa forma, é, sim, uma continuação, mas contada do ponto de vista dos filhos. Esse, no entanto, não é um ponto negativo: independentemente do retorno a Hogwarts (que perde um pouco da magia sem a descrição detalhada dos cenários), creio que o principal atrativo de Cursed Child seja esse apelo em forma de uma flechada certeira direto na nostalgia de quem acompanhou Potter & cia em outras aventuras.

Notavelmente é aí que mora o maior risco dessa continuação e explica o porquê de eu ter ficado agoniado enquanto lia. O mundo bruxo criado pela Joanne, como sabemos, corria, desde o início, o grande risco de decepcionar com soluções fáceis: se a magia resolvesse tudo, não faria nem sentido todas as dificuldades e percalços enfrentados pelos personagens ao longo de sete anos. A saída encontrada pela autora funcionou muito bem: impor certos limites às soluções mágicas, como, por exemplo, os jovens não poderem fazer magia fora da escola; não ser possível (des)aparatar em Hogwarts; e, o principal, ser impossível trazer alguém de volta à vida. Entretanto, em vez de aplicar a mesma regra da ressuscitação à polêmica questão das viagens no tempo, ela sentiu vontade de brincar com essa possibilidade e nos apresentou ao maravilhoso artefato do vira-tempo. E é aí que reside o problema.

Em uma história comum, que eventualmente ganha uma continuação, é opção do leitor saber ou não o futuro dos personagens originais. Em uma obra como Harry Potter, em que viagens no tempo são plausíveis, a continuação pode não apenas alterar a história futura, como também a pregressa, desconstruindo tudo o que nós conhecíamos – e nós sabemos que titia Rowling é bastante apreciadora da ideia de trazer fatos novos à saga (nada contra, claro, ela faz o que quiser). O receio, realmente, é que, no roteiro de uma peça – que também é, digamos, canônica –, ela acabasse alterando os acontecimentos já mais que consolidados na cabeça de milhões de fãs até que os livros e os filmes já "não fizessem sentido", pois tudo teria mudado e aquelas histórias nunca teriam acontecido. Isso para alguém que acredita na teoria do caos**, como eu, é um risco gigantesco e seria bastante controverso. Não que teríamos um problema de fato, mas seria um pouco estranho, não é mesmo?

A  L  V  O  Verde é uma cor relaxante, não é? Quero dizer, as salas da Grifinória são ótimas e tudo, mas o problema com o vermelho é que, dizem, te deixam um pouco perturbado... não que eu esteja insinuando alguma coisa.
[tradução livre]


Como eu não quero dar nenhum tipo de spoiler, vou parar as especulações por aqui. Há muito sobre os acontecimentos a ser discutido, mas qualquer coisa que eu escrevesse a mais iria revelar um pouco do enredo e eu acho interessante que todos possam passar por cada reviravolta sem saber o que esperar. (Caso terminem de ler e queiram conversar e debater, estou disponível em várias redes sociais por aí!) Todavia, ainda sem entrar no mérito da história, é possível destacar outra questão. Acontece que, em muitas cenas, os diálogos dos adultos – ou seja, Harry, Rony, Hermione, Draco e outros – não me soou crível; na verdade, parece que eu estava vendo eles novamente com seus dezessete anos, fazendo piadas e brigando entre si como se já não fossem pais e alguns não ocupassem cargos altíssimos no Ministério da Magia. Sendo justo, em alguns poucos momentos eles de fato têm discussões maduras, mas vez ou outra só (será esse mais um recurso nostálgico?). É claro que a razão disso pode ser porque, pela primeira vez***, estou lendo uma obra de Harry Potter toda em inglês, então talvez esse tipo de diálogo sempre foi natural aos adultos da série e eu somente estranhei por não estar acostumado. Outro motivo pode ser por se tratar de uma peça, em que o ritmo é bem diferente e o espaço das falas é limitado. Lembrando que o roteiro foi escrito em conjunto pela J. K., o diretor John Tiffany e Jack Thorne, o responsável por transformá-lo em um espetáculo.

“RONY: Eu não tenho medo de nada. Exceto da minha mãe”
[tradução livre]


Falando sobre a peça, para mim foi quase impossível imaginar algumas cenas que estavam descritas no livro. A começar pelo básico: como eles simulam feitiços sendo disparados?! E uma pessoa que se transforma na outra? E sombras que se revelam dementadores? Sem falar de cenários absolutamente inusitados como a parte de cima de um trem e o interior de um lago! Sinceramente, espero poder assistir ao show algum dia para poder sanar essa curiosidade. Entretanto, posso afirmar que ler o roteiro já foi o suficiente para me deixar satisfeito e para sossegar a ansiedade de mergulhar mais uma vez nesse universo único.



Meu veredito final é que acho perfeitamente compreensível Cursed Child ser o livro mais vendido do ano no Reino Unido. Querendo ou não, o nome dO Menino-Que-Sobreviveu basta para empolgar fãs do mundo todo e, felizmente, dá para dizer que as expectativas foram cumpridas e, mais uma vez, Joanne não nos decepcionou. O roteiro é divertido, coeso – apesar de causar um estranhamento em alguns momentos – e é indubitavelmente prazeroso poder revisitar Hogwarts, o Expresso, a Floresta Proibida e rever muitos dos personagens que acompanhamos durante mais de uma década. Assim, continuo confiando na escritora mais aclamada de nossa época e que ela saiba a hora certa de agitar a varinha e enfim dizer finite incantatem.



Como bom aficionado por HP, já escrevi outros dois posts relacionados: um comparando as capas dos sete livros ao redor do mundo (o que aparentemente não vai dar para fazer com Cursed Child) e outro sobre minha paixão pela saga, na ocasião do lançamento do último filme.



NOTA: Não coloquei mais citações por questões, de novo, de spoiler. Os trechos mais interessantes, infelizmente, revelariam um pedaço do enredo. #KeepTheSecrets (não obstante, devo colocar algumas citações no AMN)

OUTRA NOTA: Gerou bastante polêmica o anúncio dos atores que fariam o trio adultos, mas de tudo que faltou comentar, isso me parece o mais desnecessário.


*Traduzi os nomes tal qual a Lia Wyler fez no epílogo de HP7 e como provavelmente farão novamente.

**Complexo demais para ser explicado em uma nota de rodapé, a teoria do caos, bem resumidamente, apregoa que qualquer evento, por mais insignificante que pareça, pode afetar bruscamente o curso das coisas em qualquer lugar do universo -- aquela história de o farfalhar da borboleta causar um furacão no outro lado do mundo. Assim, se eu volto para o passado e piso em uma folha que originalmente permanecia intacta, quando eu retornar para o presente a humanidade pode ter sido extinta pelo vírus H1N1. Complexo assim.

***Da JKR, eu também li “The Casual Vacancy” e “The Cuckoo's Calling” no original, mas como não é literatura juvenil, acho que não tem como comparar.

sábado, 31 de outubro de 2015

Polaroids (I)


CENA 099
Sento-me no balanço, ao seu lado, e ao invés de perguntar o porquê de seus pés estarem fixos na areia e você não estar acompanhando o fluxo do vento, apenas me viro a te contemplar. Sempre foi assim. Poucas perguntas e muitos vislumbres. Da parte que lhe cabe, houve tantos questionamentos quanto silêncios; vários instantes de relutante admiração como de olhares fugidios, evitando encarar meu semblante de culpa – a expressão que, talvez, já seja minha máscara mais recorrente: uma marca d'água que, não importava minha feição, permanecia lá inesquecível, lembrando-te de todos os meus deslizes. Seu rosto, por outro lado, nunca vi tão belo. Não havia mais nada à minha direita ou em qualquer outra direção que não à minha esquerda, onde você e sua graça repousavam no balanço. Imaginei logo uma margarida presa nos seus cabelos escuros, véu brilhante que acompanhava o movimento das águas; a flor, pequeno sol, seria a perfeita antítese ao seus olhos, também quase negros. Quando passei por seu nariz delicado e cheguei à sua boca, percebi meu engano: era muito mais solar que as pétalas imaginárias, deixando claro por que seu beijo me revigorava sobremaneira, como se eu tivesse sido invadido por toda a luminosidade que expulsa a noite. Mas daquele momento, eu estava a semanas de ganhar outro beijo seu e não sabia. Se soubesse, talvez teria me balançado tão alto a ponto de ganhar impulso e chegar até a lua – gelada e deserta, como eu me senti nos dias que se seguiram.




CENA 226
Foi por muito pouco que a lâmina não faz um corte na minha face daquela vez em que eu já estava com creme de barbear por todo o rosto e você gritou que eu parasse imediatamente. Achei que seria uma boa ideia aparecer na entrevista de emprego (tão raras!) de 'cara limpa', mas seu argumento de que você preferia eu assim, com cara de hipster, venceu-me em poucos segundos – ainda que eu preferisse um rock mais clássico. Você sempre me vencia, e eu me sentia como derrotado, perdedor. Lavei-me e deixei que você sentisse minha barba com suas mãos e depois com seu próprio rosto. Nunca entendi como uma pele tão macia poderia preferir a aspereza. Era lógico, mas eu não compreendia. Assim como tinha dificuldades de entender como seu coração foi escolher justo a mim. Será que era lógico também?



CENA 21
Eu só sabia rir. Nunca achei que me tornaria esse tipo de pessoa, sinceramente. No entanto, depois do nosso terceiro encontro, eu havia me feito uma pessoa boa; ou melhor, você havia feito isso por mim. A lembrança do sorvete no canto da sua boca e o beijo gelado que veio logo depois era a imagem que eu colocava na frente da bagunça do apartamento que precisava ser arrumada; da discussão com o meu irmão; e com meu pai; do vizinho tocando violino às duas da madrugada; das provas finais de matérias das quais eu sequer sabia o nome direito. Paralisei o filme em qualquer cena dos momentos em que estivemos juntos e, embora a trilha sonora também estivesse congelada, pela primeira vez o silêncio era indiferente aos meus ouvidos. Bob Dylan não era mais necessário em um mundo onde havia sua voz e por meio dela você dizia coisas como 'adoro outonos; se eu estivesse no hemisfério norte, com certeza colecionaria aquelas folhas amarelas ou as bem avermelhadas  quando já perderam toda sua vitalidade e estão decrépitas, quase sem vida , como se isso não fosse mórbido e estranho em muitos níveis'. E eu ria.


| Créditos da foto: "Polaroid Week 2015 - Day 4" by August Kelm, licensed under CC BY 2.0

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Dois

Há uma canção que não me canso de escutar. Foi ela que me indicou; entre uma conversa e outra, entre uma discussão sobre os anos 90 e as narrativas do fim de semana passado. Sinto as rachaduras no meu peito: há coisa lá dentro que, de tão frágil, não se segura – engano meu, mantêm-se unidos os pedaços graças ao calor humano; como é possível que a energia dela viaje tão longa distância para chegar até mim? Eu finalmente estou inspirado para alinhar aquele pensamento no papel: a ideia só surgiu por conta de algo que ela me falou – coisa sem importância, reflexão boba que martelou por horas em movimento repetitivo, até que me reacendeu o ímpeto de escrever. Depois que eu tiver meu rascunho, ela vai revisar; vai dar pitacos; vai me apontar um grave erro que cometi – como fui prepotente naquele trecho, que infelicidade! Agradeço e vou dar uma volta. Quando eu retornar, ela ainda estará lá (exceto após a badalada da meia-noite). Tem uma matéria interessantíssima e quer compartilhar comigo, saber o que eu acho. Eu tenho uma vida não tão interessante assim, que compartilho com ela, para saber o que ela acha. Ela acha que eu deveria ler mais; eu penso o mesmo sobre ela – embora reconheça sua vitória. Nós achamos que nós deveríamos viajar mais. (Olhe lá fora, o mundo está chamando pela gente!) Uma lágrima chega a percorrer o caminho todo até pingar. Não consigo distinguir de quem é; nem se é de tristeza ou de felicidade. Tanto faz. Vai passar, eu digo a ela; espero que sim, ela me diz. Quem conta as estrelas, não conta quanto já foi dito por nós; e quanto foi não dito, mas os dois entenderam. "Ainda preciso lhe contar uma coisa": é meu mantra diário. Pausa – e leio mais um trecho do livro que ela veementemente me indicou. Corto a madrugada e percebo que já amanhece. Olho ansioso para o relógio esperando o bom-dia que me desperta para mais uma fração da vida. Em dias chuvosos, sou seu guarda-chuva amarelo; e vice-versa. Já fomos tanto ao MacLaren's que fica difícil esquecer; e quantas vezes não rimos juntos? Risadas internas de piadas internas que ninguém ao redor é capaz de compreender. Porque ninguém é capaz de nos compreender tão bem. Você entende o que quero dizer? Claro, você sempre entende. Conte-me mais sobre sua sorte no jogo e eu respondo sobre meu azar no amor. Aliás, o que o seu horóscopo prevê para hoje? Palpite: acho que vamos querer estar mortos. Pensando bem, ainda não posso ir: preciso ser seu vizinho e bater na sua porta, te chamando para provar alguma receita que, inseguro, acabei de testar; se você fizer o mesmo, terei que reconhecer sua vitória aqui também. Seu maior prêmio, contudo, deveria advir da paciência de todos esses anos – os que vieram e os que virão – me suportando. Você é mesmo guerreira... posso te presentear? Desta vez, a lembrancinha é este texto aqui. E se existe algum erro nele, desculpe-me: mas é porque você não leu antes.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Invernada

Eu sou da neve
que nunca foi minha.

Sou dos cristais
de gelo
que aquecem.

Sou das negativas
temperaturas.

Sou dos cachecóis
engolfando pescoços
sorrisos embaixo de toucas
olhares escondidos.

Sou do sol tímido
das nuvens que choram baixinho
para não acordar o casal que repousa
de conchinha
debaixo de uma coberta
que, generosa, doa sua quentura;
carrego o desejo por um calor
que não é solar
é humano.

Sou do azul
cerúleo, marinho, laguna, cor de céu
nublado, esquecido, apagado.

Sou do cinza, do esquecimento
porque passo desapercebido pela multidão
porque caminho sobre nuvens densas
e frias.

Sou do frio
do mais longínquo norte
ao mais ignorado sul
e vice-versa.

Deduza-me do inverno
dos anjos
de neve
dos chocolates quentes - que reenergizam a alma
às bebidas geladas - que acalmam o pulsar desritmado
e devolvem a realidade pálida
a um corpo demasiado humano
e seus gélidos corações.